sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Janaína Colhado Gonçalves brilha dentro de campo e nas quadras de futsal

Jogadora tem chute forte e lances inteligentes, mas lamenta não ter virado profissional por causa da falta de futuro do futebol feminino

Janaína posa com sua companheira desde a infância, a bola de futebol, na varanda da casa da família: talento
A atleta Janaína Colhado Gonçalves, 24 anos, é do futebol feminino apenas porque nasceu mulher. Na verdade, o talento dela pode ser comparado ao de um craque de bola masculino. 
Desde criança, quando começou a jogar, Janaína ouve elogios a seu futebol.

Ela aprendeu com os homens da família: o pai, o irmão e o tio.

Os três estavam sempre nos campos, a menina ia junto e aos 10 anos percebeu que também gostava.

Então, começou a treinar, no antigo time do BTC (Bauru Tênis Clube), levada pelo pai, Geraldo.

Ele a mãe da jogadora, Cleide, sempre apoiaram a filha. Levavam e buscavam nos treinos e jogos.

“Não teve preconceito. Até digo que o ‘culpado’ foi ele”, brinca a moça.

Apegada à vida em família, Janaína teve oportunidades de jogar em times fora de Bauru, mas sempre voltou.

Aos 15 anos, foi para a equipe feminina do São Paulo, ficou duas semanas e pediu para o pai buscá-la. Dois anos depois, foi para a Portuguesa e aconteceu a mesma coisa: não gostou da vida longe dos pais e retornou.

“Ligava chorando e meu pai ia buscar”, lembra.

Um dos últimos convites, também recusado, balançou a jogadora. Era para jogar nos Estados Unidos, numa equipe vinculada a uma universidade, com direito a moradia, alimentação e bolsa de estudos.

Além do apego familiar, o medo do que poderia acontecer no futuro também segurou Janaína.
“Sempre achei que para mulher não há futuro no futebol”, afirma. “Se fosse igual ao que acontece com os homens, eu estaria ganhando dinheiro”.

A atleta nunca deixou de estudar, justamente por ter consciência de não poder contar com a carreira de boleira. É formada em educação física e trabalha com venda de motos.

É jovem, mas já tem uma vida estruturada em Bauru. Teve medo de largar tudo e arriscar  uma mudança, sem garantia de retorno.

Janaína, no entanto, nunca abandonou o futebol. Jogou em Bauru durante 14 anos e participou do auge do futebol feminino.

Hoje defende a equipe de futsal de Duartina, para onde foi o grupo de jogadoras mais velhas de Bauru.

Treina três vezes por semana e joga outras três vezes, sem contar os exercícios de condicionamento físico na academia de ginástica.

Até hoje Janaína é abordada por olheiros encantados com seu talento.

Nos últimos Jogos Regionais, por exemplo, foi convidada para atuar na equipe de Volta Redonda (RJ).

O chute forte e o jogo inteligente é que chamam a atenção. São características familiares, lapidadas pelos anos de treinamentos comandados pelo Cabo Alcides, conhecido pelo rigor com seus atletas. André Requena, o técnico da época em que ela jogava por Bauru, também é rígido.

E Janaína gosta disso.

“Tem que ser assim. Forçar o atleta para ele dar o máximo, porque não adianta ser apenas mais um, tem que ser o melhor”.

De vestido, Janaína chamou a atenção

O fato de ter grande talento e nunca ter sido chamada para a seleção feminina de futebol dá uma sensação de frustração a Janaína. Em algumas ocasiões ela sabia que era melhor do que as atletas que estavam em campo. Não era fácil ver isso.

Mas a atleta também guarda na memória emocional a sensação de vencer partida muito disputada.

Aconteceu quando ela tinha 18 anos e disputou a final do Campeonato Paulista contra Araraquara, então considerada a melhor equipe feminina do Brasil.

O time de Bauru venceu por 2 a 1, em jogo realizado no BTC de campo.

“É inesquecível”.

Janaína conserva também as lições que aprendeu com o esporte: nunca desmerecer o outro, ter companheirismo e unidade.

“Se o grupo não é fechado, uma ajudando a outra, não tem time que vá para a frente”, garante.

Torcedora

A atleta conta que seu estilo - e também o do grupo que atuou em Bauru e hoje está em Duartina - é diferente do futebol feminino tradicional, que ela acha cansativo.

Tanto é que Janaína não gosta de assistir as partidas disputadas por mulheres. Gosta mais de ver os homens em campo. E joga de igual para igual, sempre confiante.

Um dos companheiros de bola, o irmão William, 28,  jogador do Redentor, time do futebol amador da cidade, só merece elogios.

“É muito bom, acho que é bem melhor que eu”.

Para a irmã, William só não foi para o futebol profissional por causa do apego à família, mesma razão que a prendeu a Bauru. 

Janaína é torcedora do São Paulo, mas hoje o jogador que mais admira é Ganso, atleta de outro time, o Santos.

Preconceito

Apoiada pela família, a jogadora enfrentou poucas situações de preconceito. E, garante, elas são cada vez menos frequentes.

Sempre lembra o dia em que ganhou um prêmio e apareceu de vestido preto e longo, cheio de brilhos.

“Perguntaram: você joga futebol mesmo?” Sim, ela joga mesmo.

Cristina Camargo/Agência BOM DIA
 
 

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